“Será nos transportes de longo curso que vai haver um maior consumo de combustíveis fósseis. Os barcos não vão andar todos a energia nuclear e os aviões não vão andar como a passarola de Bartolomeu de Gusmão. A energia eléctrica, por exemplo, é viável para os transportes de vaivém diário entre as cidades e as periferias. Mas não para os transportes de longo curso e estes são indispensáveis para manter a globalização. Vão ser precisos mais combustíveis fósseis, a menos que se acabem os transportes internacionais e as trocas comerciais.”
Posted by: João | December 10, 2008
“Se não houver investimento em novas capacidades, petróleo terá preços exorbitantes”
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Entrevista muito interessante- julgo que é a primeira vez que leio algum perito (estou um bocado surpreendido que seja português) a fazer uma interpretação correcta da situação em relação á preço de extracção vs preço do barril.
Como está provado que os poços convencionais terrestres já foram quase todos explorados, sobrando muitas opções em que a extracção é muito mais cara, falando-se na necessidade de um barril de 80 dólares para que compense este novo investimento em extracção. (no seguimento de posts seus anteriores e do 60 minutes )
Gostaria de saber a sua opinião porque só me parecem possíveis 2 cenários:
Cenário 1.Como a economia abrandou de tal maneira que o barril irá andar a 25 dólares em 2009 estas fontes novas não irão ser exploradas enquanto que o consumo continuará a aumentar.
Acontece um episódio de escassez (Verão ou Inverno em 2009 ou 2010), agravado pelo aumento anual de consumidores de petróleo e o preço dispara de 25 para á volta de 80-100 (dólares) e a economia em recuperação leva outro choque debilitante. O petróleo a partir daí fica em valores altos e economia não pode contar com ele- ou se autonomizou parcialmente (improvável em 2 anos) ou recuperou bem e pode pagar este valor (ainda mais improvável).
Cenário 2- O barril sobe já para os 80-90 dólares para compensar imediatamente as novas explorações na esperança de que a economia possa “pagar” esta subida. Como sabemos estamos em recesssão a nível global e uma nova subida fantástica agora pode aniquilar de vez qualquer hipótese de recuperação a curto-médio prazo, para não falar do fatal que era socialmente haver subidas de preço em todos os bens que dependem do petróleo (tudo!).
Cenário 3 (ficção científica e só por lazer!)- Os Estados eliminam os mecanismos de controlo de preços dos produtores confiscando reservas e poços de petróleo para si (pela força claro)- o mundo fica dividido entre as economias que crescem e que têm petróleo disponível e aqueles a quem lhes é negado. As trocas globais são interrompidas e as economias isolam-se e viram-se para dentro.
Qualquer uma das hipóteses parece difícil de gerir e o que vai de certeza acontecer não é tanto o Peak Oil mas o Peak Cheap Oil- isso é agora absolutamente certo.
A questão parece ser- choque agora, choque mais tarde ou choque gradual?
Parecem hipóteses verosímeis ou terrivelmente ingénuas?
By: Nuno on December 14, 2008
at 7:37 pm
Olá de novo Nuno!
Respondendo concretamente à sua questão, do meu ponto de vista o Cenário 1 é muito mais provável. Ou seja, a crise económica é profunda e impõe provisoriamente os preços claramente abaixo dos 50 dólares. Se outros factores não se alterarem, serão a profundidade e duração da crise a influenciar a procura, e por essa via o preço. Mais tarde ou mais cedo (2010, 2012, 2015?), as economias nos EUA e nos países da OCDE por arrastamento, iniciam a recuperação, e teremos novamente preços altíssimos, que provocarão uma nova contracção económica. Acredito que seja este o padrão, com a particularidade de, as recessões tenderem a aumentar de intensidade e profundidade, bem como o preço ter uma amplitude cada vez maior.
Como é evidente, prever num contexto de tanta incerteza, com tantas variáveis, é extremamente díficil. Parece-me que as suas 3 hipóteses são possíveis. O que é que quer dizer com ingenuidade? Há obviamente o risco de guerras por recursos…
By: on December 14, 2008
at 10:04 pm
Disse ingenuidade porque uma reaccão militar deliberadamente para proteger recursos parece algo absolutamente intolerável no mundo pós-Iraque, que esgotou a tolerância até do único povo capaz de levar a cabo esse tipo de acção.
O cenário 1 pareceu-me o mais verosímil porque aposta no instinto de auto-preservação da indústria petrolifera e nas pressões de governos para que o preço se mantenha baixo.
É claro que a voz mais serena e influente da OPEC, a Arábia Saudita, aposta na prudência mas está a jogar neste momento para que a economia regresse ao ponto em que estava pré-crise de subprime uma vez que já assumiu que os actuais preços baixos só poderão ser mantidos por um curto período antes de aumentos significativos na procura, que terá necessariamente que ocorrer?
Se cresce a economia, sobe o preço do crude, cai a economia, desestabiliza-se a sociedade.
Se decresce a economia, baixa o preço do crude, acontece a escassez, sobe o preço do crude, ocorre nova escassez, nova quebra e desestabiliza-se a sociedade.
“Damned if you do, damned if you don’t”.
Será que a economia de crescimento perpétuo encontrou o seu calcanhar de aquiles, não na desigualdade social mas na indisponibilidade da sua principal matéria-prima?
By: Nuno on December 15, 2008
at 12:37 am