Posted by: João | October 10, 2008

O golpe de Estado financeiro na América, raíz do crash de 2008

“O problema é muito mais profundo e vem detrás», diz-nos (em entrevista, que pode encontrar em língua inglesa aqui) a consultora de investimentos Catherine Austin Fitts, que se tornou numa «ex-insider» maldita. Catherine trabalhou vários anos numa firma da nata da Wall Street entre 1978 e 1989 e foi secretária do comissário do Departamento federal para as questões da Habitação (conhecido pelo acrónimo HUD) durante 18 meses em 1989-1990, ao fim dos quais foi demitida sumariamente.

Ela percebeu como “funcionava a coisa” quer na Wall Street como em Washington DC. Apercebeu-se rapidamente no HUD do mecanismo «tóxico» em torno do que viria a ficar famoso como o escândalo do S&L – Savings and Loans, que levaria à falência de 747 instituições entre 1985 e 1995, a um total de 1600 instituições envolvidas em problemas financeiros e a um custo para os contribuintes americanos no montante de 160 mil milhões de dólares. Apelidaram-na altura de “Senhora da Limpeza”.

E como funcionava a coisa? Criou-se um verdadeiro sistema alimentado por uma rede de instituições que passaram a viver dessa “criatividade financeira” que veio dos anos 1980 e do próprio crime financeiro de alto colarinho-branco organizado. O sistema cresceu e consolidou-se porque beneficiou toda uma cultura americana de viver a débito e de enriquecer com rendas nos instrumentos «tóxicos», nas bolsas ou na exportação de capitais. Os gloriosos trinta anos de esplendor económico da América com três «bolhas» sucessivas (dos anos 1980, depois das «dot-com» e finalmente do crédito hipotecário) alimentaram-se dessa criatividade.

Catherine chama a este movimento de fundo, silencioso, não transparente, à revelia do controlo democrático dos cidadãos, de “verdadeiro golpe de estado financeiro”. Como ela nos diz em entrevista, o processo levou à “reengenharia global da governação”, colocando-a fora do controlo das famílias, do cidadão, das comunidades e mesmo de governos soberanos, centralizando-a numa rede (num «network», na expressão inglesa mais popularizada) de alta finança cuja osmose com os políticos profissionais e os burocratas é cada vez mais conhecida. A esse «network» alguns já chamaram de “sistema financeiro sombra”.”

Vale a pena dizer que Nouriel Roubini e Catherine Austin Fitts são as minhas principais referências para compreender a crise financeira. É um privilégio que o seu pensamento esteja disponível em português. Obrigado Jorge Nascimento Rodrigues.

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